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Cineteatro Municipal

 

 

 O TEATRO EM RIO MAIOR - tradição antiga

«Desde 1870, nas barreiras do sítio das amendoeiras, viria a construir-se, por acções subscritas, o velho edifício do Teatro Riomaiorense. A iniciativa partiu de uma comissão constituída por Emídio José de Oliveira, Dr. Bernardino Arde Soveral, José Carreira de Almeida, Francisco Henriques de Carvalho e Francisco Inácio Regalo. A construção foi lenta e feita por fases, funcionando com obras e bancadas improvisadas, também com o apuro de espectáculos por amadores e até com o trabalho voluntário de pedreiros e carpinteiros. Foi uma obra colectiva dos habitantes de Rio Maior».[1]

Como se vê pelo excerto de texto a tradição pela arte de representação em Rio Maior é muito antiga, provavelmente tão antiga quanto o concelho. Daí que se tenha justificado a construção de instalações próprias, aparentemente precárias, mas que com tempo e persistência foram sendo melhoradas. Dez anos depois, em 1880 portanto, foi finalmente inaugurado o Teatro Riomaiorense. Tinha 15 camarotes, 16 frizas, 80 lugares de plateia e 50 de geral, apresentando ainda um amplo palco e diversos camarins.

Para a época foi, concerteza, um importante investimento, tão importante que a sua construção demorou mais do que o tempo razoável, de resto só compreensível pela falta de recursos que nem as elites locais conseguiram suprir com rapidez. Mas foi sobretudo um equipamento de grande utilidade, a juntar a tantos outros que no último quartel do século a vila e o concelho viram nascer, fruto de um dinamismo que colocou no topo das prioridades a instrução, a cultura e o associativismo. O Grémio de Instrução e Recreio, a Escola Primária da Vila e a Associação de Bombeiros, são disso exemplo.

De resto, é o próprio Grémio, depois designado de Assembleia Riomaiorense, que irá dinamizar com grande êxito a constituição de grupos amadores de teatro que, ao serão, promoviam «recitações, declamações, leituras e habilidades», como então se dizia. Já no início do século XX a associação instala-se no edifício do Teatro e passam a ser habituais as récitas de amadores que, sobretudo no inverno, levam à cena peças de costumes, comédias, monólogos, cançonetas e operetas de enorme importância sócio-cultural. Menos frequentes são as representações de grupos profissionais em digressão pela província, como a Cª Dramática Lisbonense, ainda no tempo da monarquia, e a Cª Nunes, já na era republicana, ambas traduzindo no respectivo repertório as alterações políticas registadas.

Em 1920 a fundação da Tuna Riomaiorense, grupo musical ligado ao teatro e dirigido por António da Conceição Duarte, veio dar novo impulso e enriquecer as «perfomances» do grupo amador, agora que dispõem de ensaiador, pianista e grupo coral. Por volta de 1930 o grupo perde força e coesão, mas em seu lugar forma-se o Grupo Dramático Riomaiorense, dirigido por Eugénio Casimiro, que consegue boas prestações em peças de comédia e drama, ainda que se acentuem as dificuldades dada a degradação das instalações, depois de meio século de uso e pouca manutenção.

Por isso, não se estranha que a Inspecção de espectáculos, em 1940, obrigue ao encerramento da sala por falta de condições, acabando por reabrir dois anos depois após algumas obras, como relatava o jornal local[2]: «Vai voltar a funcionar o Teatro Riomaiorense, depois de se ter chegado a supor que o seu encerramento, como casa de espectáculos, era definitivo. [...] provavelmente ainda no corrente mês, quase exactamente no estado em que se encontra, pois só serão construídos um depósito para água e um resguardo na escada exterior situada na Calçada do Calvário e colocado um pára-raios, obra exigida pela Inspecção dos Espectáculos, Serão também reparadas as portas, pintado e caiado interior e exteriormente e talvez substituída uma parte da plateia. Não serão pois, efectuadas por agora, quaisquer obras que lhe aumentem a lotação ou que melhorem sensivelmente a pouca comodidade a que o público cinéfilo já se habituou ... ».

É, aliás, nesta altura que se inicia o Grupo Cénico Zé Pereira, de tão boa memória. De facto, este grupo amador vai representar, ao longo dos anos 40 e princípios de 50, inúmeras peças originais de autores riomaiorenses, com destaque para Amílcar Barbosa, Georgette Goucha e Laureano Santos, que retratam com bastante sucesso os problemas e o quotidiano riomaiorense. O êxito é tanto que «as representações se sucedem todas as semanas até já não haver mais espectadores»[3], chegando mesmo a actuar fora da vila, exibindo-se na Ribeira de S. João e em A-dos-Francos.

A partir dos anos 50, um pouco por culpa da continuada falta de condições da sala, mas também pelo aparecimento do cinema, exibido regularmente na Casa do Povo, desaparecem os Grupos Cénicos que tanto animaram as «tardes/noites» riomaiorenses. Nem a constituição de uma sociedade comercial para garantir a gestão do Teatro Riomaiorense consegue inverter o declínio. Agora, o pouco teatro que acontece muda-se também para a Casa do Povo e disputa os «artistas e o público» com o celulóide de produção caseira que se reúne em torno de um Cine-Clube pujante e dinâmico.

Esgotada a antiquíssima sala do Teatro Riomaiorense, ainda se construiu uma nova sala, mais virada para o cinema. Mas, ultrapassado na sua estrutura funcional sem mesmo ter tido alguma vez possibilidades de se desenvolver, o Cinema-Estúdio Casimiros está encerrado e condenado a desaparecer. Hoje, os investimentos e manutenção de um espaço cultural polivalente, com características de Cine-Teatro, exigem somas avultadas que a iniciativa privada não pode satisfazer em meios culturais tão pequenos, como é o caso de Rio Maior.

Daí a responsabilidade que as autarquias têm em promover os novos espaços e dinamizar a actividade cultural. Por isso, a Câmara Municipal de Rio Maior tanto se empenhou no projecto que agora se apresenta e que, estamos certos, correspondendo às expectativas, faz juz a um passado rico e empenhado dos riomaiorenses de todas as condições. Aliás, é essa uma das grandes virtudes da actividade cultural, e em particular do teatro, ao promover a osmose social tão necessária ao equilíbrio saudável de qualquer sociedade.

 

O novo CINE-TEATRO - construção da modernidade

Para ultrapassar esse vazio instalado, e que muito tem penalizado a cultura inviabilizando o aparecimento de grupos e actividades culturais saídos da sociedade civil, nomeadamente das escolas e associações que, de tempos a tempos, parecem querer quebrar a apatia e o desinteresse pela promoção e criação artística, propôs-se a Câmara Municipal erguer de raiz uma sala de espectáculos, do tipo Cine-Teatro.

Deve dizer-se que esta obra, de tão importante para o desenvolvimento cultural do concelho, vai agora ser executada depois de satisfeitas as necessidades elementares da cidade e das freguesias, sobretudo nas áreas da distribuição de água e do saneamento básico, das estradas e caminhos rurais, das escolas e jardins de infância, dos centros de dia e de estar, de biblioteca e casa senhorial, bem como múltiplos equipamentos desportivos espalhados pelo concelho, a par de significativos apoios às associações cultuais e recreativas. E, diga-se, todos estes equipamentos têm tido níveis de utilização notáveis.

Mas as exigências para a construção deste tipo de equipamento são enormes e estão profundamente tipificadas em função dos agregados populacionais a que se destinam. Rio Maior teria, por esses critérios, a possibilidade de construir uma sala de terceira categoria, mas pela persistência e argumentação do seu Presidente junto das instâncias financiadoras conseguiu-se um projecto bastante melhorado, ao nível dos desenvolvidos para as capitais de distrito.

 

 

ARQUITECTURA

 A construção de acordo com as melhores regras e a mais adequada escolha dos materiais e processos construtivos assegura os elevados níveis de qualidade e excelente comportamento térmico, acústico e de isolamento às águas e humidades, compreende: 

 

Cine-Teatro com 250 lugares

 

Sobriedade de construção

 

Volume negro (em pedra) - fechado, levantado do chão 

Volume banco (em reboco estanhado) - aberto, pousado no chão

 

Sala polivalente: óptima visibilidade / espaço climatizado

Caixa de palco e sub-palco

Recepção/apoio, bar e bengaleiro

 Camarins (individuais e colectivos) com acessos privados

Cabinas de tradução simultânea, regie, sala de projecção

Salas de apoio, balneários

 

Estacionamento subterrâneo para cerca de 100 viaturas

 

Desenvolve-se num só piso

Entrada a norte (Rua José Pedro Inês Canadas)

Saída a este (av. Paulo VI)

Ligações ao exteriro: duas escadas, um elevador e duas rampas

 

Arranjo de toda a área de superfície de uma forma integrada

 

Espelho de água que reflete e multiplica o espaço

Mobiliário urbano (bancos) e iluminação (incorporada e de chão)

 

 

Augusto M. Tomaz Lopes

Licº em História

 

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[1]  Cf. DUARTE, Fernando, História de Rio Maior, Edição do Autor, Rio Maior, 1979, pp. 44.

[2]  Idem, Ibidem.

[3]  Vd. LOPES, Augusto, ‘A Memória Oral de João Afonso Calado da Maia’, in Conversas ao Entardecer, Rio Maior, 2004. [não publicado]

 

 

 

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